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Salvador Bahia
Turisticamente, o ponto é para lá de manjado. Algo
como o Cristo Redentor, no Rio, ou o Guaíba, em Porto Alegre. Mas o
Pelourinho tornou-se, desde 1985 - quando foi considerado patrimônio da
humanidade, pela Unesco -, parada obrigatória para quem quer sentir o
pulsar da capital baiana.
O lugar que abrigava as colunas onde os negros eram
castigados na época da escravidão guarda cerca de 800 casarões
restaurados dos séculos 17 ao 19. Suas ruelas e ladeiras, de onde sempre
ecoa uma batucada ou surge uma roda de capoeira, hoje contam com bares e
restaurantes. Muitos têm música ao vivo à noite, e a festa segue até
altas horas. Há também lojas, onde os visitantes encontram toda sorte de
badulaques e, para delírio das estrangeiras, mulheres que trançam
cabelos à moda afro.
Já as joalherias encantam pelos trabalhos com pedras
brasileiras, alguns imitando o artesanato dos escravos. É o caso da penca
de balangandãs, um objeto de culto religioso que as escravas usavam no
pescoço ou preso ao vestido e cujos originais, de prata, estão no Museu
Carlos Costa Pinto, em Salvador, considerado o maior acervo de prataria do
País.
Além de balada e comércio, o conjunto arquitetônico
do Pelô - que fica na Cidade Alta, com acesso pelo Elevador Lacerda,
outro dos cartões-postais da cidade - guarda 16 igrejas e alguns museus.
O templo mais suntuoso é o Convento de São Francisco, reconstruído no
século 18, época de abundância de ouro e de predomínio do barroco no
País. Prova disso é que os altares da igreja, tomados com talhas de
anjos, flores e animais, são inteiramente revestidos com o metal. Reza a
lenda que ali teria sido usada nada menos que uma tonelada de ouro.
Bastante procurada pelos turistas que seguem para
Salvador, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos realiza, toda
terça-feira, às 18 horas, uma missa que é o exemplo de sincretismo
entre ritual católico e crenças afro: a bênção do Pelourinho. No
templo - erguido a partir de 1704 com o trabalho de negros já livres e
dos ainda escravizados, e que levou 96 anos para ficar pronto -, o padre
segue a cerimônia católica, mas os participantes cantam na língua
iorubá, tocam timbaus e atabaques, dançam ijexá e usam suas guias do
candomblé.
E a mistura é aprovadíssima. Basta reparar que a
Rosário dos Pretos está sempre lotada. No fim da celebração, ocorre a
distribuição dos pães de Santo Antônio e a aspersão de água benta,
que até quem não participou da missa pode receber. É que o padre vai
até a parte de fora da igreja para molhar a cabeça de quem não
conseguiu um espaço lá dentro. Depois de receber a bênção, o caminho
natural é seguir para o The African Bar, o ensaio cheio de ginga do grupo
Olodum.
A partir do Elevador Lacerda - que serve de ligação
entre as cidades Baixa e Alta -, o visitante encontra uma série de
passeios em que sempre verá a Baía de Todos os Santos. Pertinho do
elevador está o Mercado Modelo, um dos principais pontos-de-venda de
artesanato regional. Embora seus preços sejam mais baixos que os
encontrados no Pelourinho, por exemplo, não deixe de pechinchar: o
turista sempre consegue salvar uns bons reais do preço inicialmente
oferecido.
Um detalhe que faz a diferença no mercado é que hoje
em dia seus vendedores geralmente conseguem ficar dentro das lojinhas, sem
assediar, seguir ou pressionar o visitante a levar um produto. Há menos
de dois anos, a situação era completamente outra.
Depois, usando seu lado de viajante independente, pegue
um ônibus perto do elevador e siga em direção ao Bonfim, onde está a
igreja cujas escadarias são lavadas pelas baianas do candomblé. Isso
ocorre porque na religião africana o Senhor do Bonfim tem
correspondência com Oxalá, o deus maior do candomblé. Ao olhar a
escadaria pela primeira vez, impossível não sentir uma pontinha de
decepção. É que pela TV, com todas aquelas baianas de branco
trabalhando e cantando, ela parece bem maior do que é - na verdade, são
apenas sete degraus.
Outro fato curioso é que o Senhor do Bonfim não é
exatamente um santo. O que se conta é que, durante uma viagem entre
Portugal e Brasil, o capitão português Teodózio Rodrigues de Faria
enfrentou uma forte tempestade. Temendo morrer, o capitão agarrou-se à
imagem do Cristo crucificado pedindo para ter um bom fim e desmaiou. Ao
recobrar os sentidos, Rodrigues de Faria estava navegando na tranqüila
Baía de Todos os Santos. Como agradecimento, ele resolveu erguer uma
capela em homenagem ao Cristo, que ele homenageou de Senhor do Bom Fim. Em
1754, a capela deu lugar à atual igreja, que guarda a imagem original
trazida pelo capitão português.
Santo de fato ou não, o Senhor do Bonfim
popularizou-se e ganhou fama de milagreiro. Tanto que católicos e
praticantes do candomblé seguem a tradição de amarrar uma fita no pulso
com três nós, cada um representando um pedido. Do largo do Bonfim dá
para seguir a pé para a Ponta do Humaitá - o limite extremo da
península de Itapagipe, um braço de terra que avança para a Baía de
Todos os Santos -, onde há um farol. Ali estão a Igreja e Mosteiro de
Mont Serrat (dos séculos 16 e 17, respectivamente), além do Forte de
Nossa Senhora do Mont Serrat, que guarda um museu de armas.
Mas se a idéia for só curtir o visual, sente e
aproveite especialmente se dali a pouco for hora do pôr-do-sol. A vista,
que mostra as cidades Alta e Baixa e as três maiores ilhas da Baía de
Todos os Santos - Itaparica, Maré e a dos Frades - é imperdível. Outro
ponto disputado para curtir o fim de tarde é o Farol da Barra, no extremo
oposto à Ponta de Humaitá e palco de grandes eventos, como réveillon e
Carnaval. A subida ao antigo farol de ferro, de origem francesa e que
ainda hoje funciona (tem alcance de 70 quilômetros), é proibida, mas
vale a pena visitar o Forte de Santo Antônio da Barra.
Com a bênção de todos os santos e orixás, Salvador
- "(...) terra festeira, de gente bonita/Que dá nó em pingo d'água,
que agita e que agita", como canta Daniela Mercury - já prepara sua
programação para as festas de fim de ano e para fazer a alegria de quem
aportar na cidade Uma das apostas é o evento Salvador Cidade Natal, entre
10 e 25 de dezembro. A intenção é mostrar que fé, emoção e todas as
celebrações católicas para o nascimento de Cristo combinam com sol,
praia e a alegria da Bahia.
Além da Feira de Santeiros - onde há imagens sacras
feitas por artesãos de diversos Estados -, exposição de artesanato,
apresentação de reisados e folguedos, ceia natalina e presépio virtual,
um dos momentos mais aguardados do Natal soteropolitano é o Coral das
Crianças da Cidade de Salvador, na praça da Sé. São 201 crianças,
entre 8 e 12 anos, que entoam canções que falam de paz, fé, amor,
alegria e esperança. Nas apresentações, a garotada ocupará um palco
temático e as janelas do Palácio Arquiepiscopal e da Santa Casa de
Misericórdia.
Mesmo com as atrações ainda em fase de negociação,
ninguém duvida que o réveillon em Salvador será sinônimo de pura
alegria, garantida pela vibração dos turistas e pela energia dos filhos
de Iemanjá, que ali na capital, onde há 1.800 terreiros de candomblé,
fazem suas oferendas à rainha do mar. Além do trecho entre o Farol da
Barra e Ondina - onde ocorrem os principais shows da virada, com a
presença de 1 milhão de pessoas -, a festa se espalhará por outros
pontos da cidade, como Periperi, Boa Viagem, Amaralina, Costa Azul,
Jaguaribe e Itapuã. No entardecer do primeiro dia de 2005, Daniela
Mercury receberá convidados no Farol da Barra para saudar o Ano-novo.
Também no dia 1º de janeiro haverá a tradicional procissão de Bom
Jesus dos Navegantes.
Mas um dos maiores exemplos de sincretismo religioso se
dá na segunda quinta-feira depois do Dia de Reis (no ano que vem, 13 de
janeiro), quando as baianas seguem em cortejo da Igreja de Nossa Senhora
da Conceição da Praia até a Igreja do Senhor do Bonfim, onde lavam as
escadarias e o adro do templo religioso com água perfumada. Nos dias 22 e
29, a lavagem se repete na Igreja de Nossa Senhora da Conceição de
Itapuã e em Ondina.
Maior manifestação pública do candomblé, a Festa de
Iemanjá toma a praia do Rio Vermelho em 2 de fevereiro. As oferendas são
jogadas na água por um cortejo com centenas de embarcações. E, como em
2005 a data cai na véspera do Carnaval, a festa no Rio Vermelho deve
seguir noite adentro. Mas é o Carnaval, sem dúvida, o momento mais
aguardado por baianos e forasteiros. Marcado no calendário local para
entre 3 e 8 de fevereiro, a folia do ano que vem seguirá o tema Carnaval
na Bahia, a Cada Ano Mais Alegria. E é mesmo uma explosão de alegria, de
vibração e de mais de 200 grupos que desfilam, arrastando mais de 2
milhões de pessoas - números que colocaram o Carnaval soteropolitano no
"Guinness Book" como o maior evento do gênero no planeta.
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